📅 04/02/2026 ‱ ⏱ 3 min

A Semente, o Cansaço e o Voo

A Semente, o Cansaço e o Voo

O que aprendi em um amanhecer cinzento

O dia amanheceu cinzento aqui. Uma neblina suave, daquelas que lembram os dias melancĂłlicos do passado, insiste em encobrir o sol. Eu poderia dizer que Ă© apenas o clima, mas sinto um reflexo disso cĂĄ dentro. Aos quase sessenta anos, o racional ainda luta para manter o controle, mas o resultado dessa batalha Ă© uma fadiga que pesa nos ombros e turva o discernimento.

Bateu um desĂąnimo. Decidi nĂŁo lutar contra ele; voltei a dormir. Às vezes, a maior produtividade Ă© a entrega ao repouso.

Nesses dias de chuva atĂ­pica, tenho pensado muito na imagem de uma semente sob a terra. No escuro, ela parece sozinha. Seu estado fĂ­sico externo se deteriora, apodrece e se rompe. Para quem olha de fora, Ă© o fim; para a semente, Ă© o Ășnico caminho para que o nĂșcleo se manifeste com força.

Sinto que estou nesse processo. Minhas crenças antigas estĂŁo "deteriorando" para permitir que uma nova perspectiva de vida, mais elevada e voltada para o que Mateus descreveu como o Reino dos CĂ©us, comece a brotar. É um processo silencioso, que exige a lucidez da espera e menos ansiedade.

Nessa fase de descoberta, cometi um erro comum: o desejo desesperado de compartilhar o que estou aprendendo. Tentei conceituar o sagrado para facilitar o entendimento de quem ainda está preso em religiosidades ultrapassadas. É como ver uma porta aberta e se recusar a entrar sozinho, tentando puxar os outros pela mão.

Hoje eu entendi: O Reino dos Céus é, acima de tudo, um estado de profunda compaixão.

  • Eu me liberto da fadiga de querer ser o guia de quem ainda nĂŁo pediu o caminho.
  • Minha liberdade nĂŁo exige que o outro mude para que eu seja feliz.
  • Eu aceito que cada um manifesta a consciĂȘncia que lhe Ă© possĂ­vel agora.

Do ponto mais alto do meu Ser, hoje eu observo a paisagem da minha vida. Vejo as preocupaçÔes familiares e os ruĂ­dos do mundo como nuvens lĂĄ embaixo — pequenas e distantes. Nesta altitude, o ar Ă© puro.

Minha paz não estå mais em negociação. Ela não depende da minha confusão interna passageira e muito menos do entendimento alheio. Eu atravessei a porta. Descobri que o amor não exige argumentos; ele apenas brilha.

E aqui, nesta quietude que o dia cinzento me proporcionou, eu me pego revisitando as palavras de Mateus, no sexto capĂ­tulo de seu livro. Por quase sessenta anos, li ou ouvi sobre "buscar primeiro o Reino dos CĂ©us", mas talvez sĂł agora, no silĂȘncio da minha prĂłpria semente que rompe a terra, eu esteja começando a sentir o que isso significa.

Não como um lugar geogråfico, nem como uma recompensa futura, mas como esse estado de confiança que não se abala com o tempo chuvoso ou com a incompreensão ao redor.

Se vocĂȘ tambĂ©m sente o peso do mundo ou a fadiga de tentar explicar o que ainda estĂĄ florescendo em vocĂȘ, deixo apenas uma pergunta para a nossa quietude compartilhada:

Como seria o seu dia hoje, se vocĂȘ se permitisse acreditar que o "Reino" jĂĄ estĂĄ aĂ­ dentro, pulsando sob a neblina, esperando apenas que vocĂȘ pare de lutar para que ele comece a voar?

NĂŁo hĂĄ pressa para responder. O tempo da semente Ă© diferente do tempo do mundo. Talvez, por hoje, bastem o cafĂ©, o silĂȘncio e a percepção de que jĂĄ estamos a caminho.

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Automestria

Presença. Clareza. Integração.

O saber que emerge do silĂȘncio.

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